quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

O contraste

Aqui me ponho em frente ao branco ecrã dispondo-me a descrever teorias acerca do contraste, quando nem sequer sei bem quando inspiro, ou expiro - o mais básico contraste que sei assinalar em mim.
Dá-me uma luz - será a minha inabilidade de reconhecer o meu mais intimo e simples acto de contraste um impulso para descrever teorias acerca do mesmo numa escala intelectual?
Se fôr, é um impulso muito idiota, uma forma de começar completamente errada, enfim - intelectualidades desprovidas de sentido, e construindo esse mesmo sentido num plano ilusório, que há superficie parece (ou poderia parecer não fosse este desencanto) bastante real.

Descobri hoje que com a terra se passa o mesmo, mas de um jeito muito, muito mais lento.

http://www.ted.com/index.php/talks/frans_lanting_s_lyrical_nature_photos.html

O cérebro floresce ideias, inebria-se com elas, e atiça-as, mas depois vem a seleção natural, algo que já não depende dessa fonte mas da adaptação da ideia gerada ao ambiente circundante. E esse ambiente tem muito que se lhe diga, ou não.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Alan Watts

O mito, é então, a forma pela qual eu tento responder, quando as crianças me fazem aquelas questões metafísicas fundamentais que surgem tão espontaneamente nas suas cabeças: "De onde vêm o mundo?" "Porque é que Deus fez o mundo?" "Onde é que eu estava antes de nascer?" "Para onde é que as pessoas vão quando morrem?" Constato, uma outra vez, que eles ficam sempre satisfeitos com uma simples e muito antiga história, que é algo como isto:
"Nunca existiu um tempo em que o mundo começou, porque ele anda às voltas, como um círculo, e não há um sítio onde um circulo começa. Olha para o meu relógio, ele diz-nos as horas - anda às voltas, é assim que o mundo repete-se uma e outra vez. Mas, assim como as horas no relógio sobem para as doze e baixam para as seis, também há o dia e a noite, o acordar e dormir, o viver e morrer, o verão e o inverno. Não podes ter nenhumas destas coisas sem a outra, porque não saberias o que era o preto se não o visses lado a lado ao branco, ou o que era o branco, se não estivesse lado a lado ao preto.
"Da mesma maneira, há momentos em que o mundo é, e momentos em que não é, porque se o mundo continuasse para sempre sem um descanso, ficaria terrivelmente cansado de si mesmo... Vai e vem... Agora vês, agora não. Então é porque não fica cansado de si mesmo que volta outra vez, depois de ter desaparecido. É como a tua respiração: entra e sai, entra e sai, e se tu tentares sustê-la o tempo todo sentes-te muito mal. É também como o jogo das escondidas, porque é divertido encontrar novas maneiras de esconder, e também procurar por alguém que não se esconde sempre no mesmo sítio.
"Deus também gosta de brincar às escondidas, mas porque não existe nada fora de Deus, Ele não tem ninguém para brincar a não ser com Ele próprio. Mas Ele ultrapassa esta dificuldade fazendo de conta de que Ele não é Ele mesmo. É a maneira de se esconder de si próprio. Ele faz de conta que és tu, eu e toda a gente no mundo, todos os animais, todas as plantas, todas as pedras e todas as estrelas. Desta maneira ele vive aventuras estranhas e maravilhosas, algumas das quais são terríveis e assustadoras. Mas estas são como pesadelos, porque quando Ele acorda elas desaparecem.
"Então, quando Deus joga às escondidas e faz de conta que és tu e eu, Ele fá-lo tão bem que demora muito tempo a descobrir onde se escondeu. Mas aí é que está toda a piada – aquilo que Ele queria mesmo fazer. Ele não se quer encontrar muito rápido, porque assim iria estragar o jogo. Por isso é tão difícil para mim e para ti de descobrir que somos Deus disfarçado, a fazer de conta que não é Ele mesmo. Mas quando o jogo tiver demorado bastante tempo, todos nós vamos acordar, deixar de disfarçar, e lembrarmo-nos que somos todos um único Ser – o Deus que é tudo que existe e que vive para todo o sempre.
"Claro que tens de te lembrar que Deus não tem a forma de uma pessoa. As pessoas têm pele, e há sempre coisas fora da nossa pele, se não houvesse, não saberíamos a diferença entre o que está dentro e o que está fora do nosso corpo. Mas Deus não tem pele ou forma porque não existe nada fora Dele. (com uma criança suficientemente inteligente, eu ilustro esta ideia com uma "Mobius strip" – uma tira de papel curvada de um modo que tem apenas um lado e um limite) O interior e o exterior de Deus são o mesmo. E tenho estado a falar de Deus como um "ele" não como uma "ela", mas Deus não é homem nem mulher. Eu não disse que era uma "coisa", porque normalmente usamos a palavra "coisa" para algo que não está vivo.
"Deus é o Eu do mundo, mas não podemos ver Deus pela mesma razão que, sem um espelho, não consegues ver os teus próprios olhos, e certamente que não podes morder os teus próprios dentes ou olhar para dentro da tua cabeça. O teu Eu está tão bem escondido porque é Deus mesmo a esconder-se.
"Podes-te perguntar porque é que Deus ás vezes se esconde na forma de pessoas terríveis, ou de pessoas que sofrem de muitas dores e doenças. Mas lembra-te, primeiro, que Ele só está a fazer isso a Ele próprio. Lembra-te também que, em todas as histórias que tu gostas tem de haver pessoas más assim como pessoas boas, porque a excitação da história é descobrir como as pessoas boas vão vencer as pessoas más. É como quando jogamos às cartas. Ao principio baralhamos as cartas numa confusão, que são como as coisas más no mundo, mas o objectivo do jogo é colocar a confusão numa boa ordem, e quem o fizer melhor é o vencedor. Depois baralhamos de novo as cartas e jogamos de novo, o mundo é assim também.

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